quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Desculpe o transtorno, preciso falar de Xena

Conheci ela na guerra. Essa frase pode parecer bélica, se você imaginar exército contra exército em um campo de batalha. Mas a guerra em questão era um poderoso traficante de escravos que havia sequestrado eu e outras mulheres de minha aldeia Potédia, incluindo minha mãe e irmã. Ela estava lá, eu havia tentado resistir e lutar contra aqueles tiranos quando ela surgiu, com vestimentas intimas e lutando como nunca havia visto. Eu nunca vou me esquecer.

Quando os soldados caiam no chão, ela permanecia no alto. Quando a atacavam, ela os colocava de joelhos. Eles tentavam acabar com ela, ela girava sobre o cajado e se esquivava. Os olhos, sempre intensos e azuis, deixavam claro que ela sabia muito bem o que estava fazendo. Foi paixão a primeira vista, só para mim, eu acho.

Passamos algumas madrugadas juntas, a beira da fogueira, eu contava histórias para ela, que era sempre muito calada e parecia as vezes desinteressada, mas no fundo, eu sabia que ela gostava.
Começamos a viajar juntas quando ela tinha 27 anos e eu 17, mas parecia que a vida começava ali. Fomos a todos os lugares. Alguns fomos várias vezes. Lutamos juntas de todas as formas que podíamos. Ela caçava e eu cozinhava, quase sempre. E algumas vezes, acabei deixando a comida queimar porque eu me distraia conversando com ela. Em meio a tantas batalhas, nós tínhamos tempo para nos divertir.

Nós fomos a ilusia se perdoar, aprendemos tanto uma com a outra, vimos e enfrentamos deuses. Escrevi milhares de histórias sobre ela e sobre como ela era incrível, em tudo que fazia. Fizemos amigos juntas. Rimos até dos nossos inimigos juntas, como a Callisto. E dos inúmeros admiradores que encontramos ao longo da jornada, como a Minya. Viajamos o mundo em cima do cavalo dela. Dos 10 golpes que sei hoje, 7 foram ela que me ensinou, os outros 3, eram o estilo próprio dela. Que aprendi observando. Aprendi com ela a ser forte, a superar o passado, as dores e outras coisas que nem os deuses sabem e quem não  teve a sorte de viajar com ela.

Um dia ela se foi, não foi fácil. Chorei mais que quando li o poema mais melancólico de Sapho. Mais do que nunca havia chorado em toda a minha vida. Até hoje não tem um lugar que eu vá e alguém não diga: "cadê ela?" Parece que pra sempre ela vai fazer falta. Se pelo menos a gente tivesse um filho nosso. Nós temos a Eve... talvez por ela eu sempre possa encontrar algo da Xena.

Essa semana, pela primeira vez, li meus pergaminhos onde escrevi sobre  nossa crucificação em Roma, nos Idos de março. Achei que fosse chorar tudo de novo. E o que me deu foi uma felicidade muito profunda de ter vivido um grande amor na vida. E de ter esse amor documentado em minhas histórias—e futuramente quem sabe as pessoas não os documente em peças de teatro? Não falta nada.

*Texto adaptado por Juliana Corrêa, da crônica de Gregorio Duvivier "Desculpe o transtorno, preciso falar de Clarice". Link do texto original: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gregorioduvivier/2016/09/1812342-desculpe-o-transtorno-preciso-falar-da-clarice.shtml

2 comentários:

  1. Como fã de Xena preciso dizer que esse texto é simplesmente maravilhoso!! Um dos melhores que já li. Parabéns pelo seu talento!!
    Você tem mais algum texto sobre a série?? Eu realmente amei esse :)

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  2. Como fã de Xena preciso dizer que esse texto é simplesmente maravilhoso!! Um dos melhores que já li. Parabéns pelo seu talento!!
    Você tem mais algum texto sobre a série?? Eu realmente amei esse :)

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